O que os shortinhos ensinam sobre a escola?

Publicado por Filipe Celeti em 25/02/2016 às 16h10

idressformeUm abaixo-assinado elaborado por alunas do Rio Grande do Sul tem recebido apoio nas redes sociais. Na carta direcionada à direção da escola são comentados diversos pontos abordados pelo feminismo e que é preciso uma mudança de política de vestimenta: (1) por conta do calor e (2) porque são os alunos que devem aprender a respeitar e não as aunas que devem evitar o desrespeito. O texto "Vai ter shortinho sim" tem gerado muitas discussões e debates nas redes sociais. Apesar do que se pensa a respeito do debate (a favor ou contra o uso de shortinhos nas escolas) é possível aprender algo com o debate? Eu penso que sim.

 

flaviodecarvalhoA vestimenta no Brasil

Não é de hoje que se debate a vestimenta no Brasil. Flávio de Carvalho (1899-1973), arquiteto e artista, chocou o centro de São Paulo, em 1959, ao sair pelas ruas com o seu New Look, um modelo de roupas que inventou para o clima tropical. O fato é que herdamos uma vestimenta desenvolvida em outros contextos culturais. Não se trata de chorar a nudez reprimida pela colonização e guerrear contra a opressão da gravata, mas de compreender que realmente nos vestimos de forma imprópria tendo em vista o clima quente no qual vivemos.

As mulheres, desde os tempos coloniais, se vestiam de vestidos com muitas camadas e com tecidos pesados, como o veludo. Ao longo dos séculos sempre copiaram as cortes europeias. Tudo era muito bem planejado para demonstrar seu status e posição social.

Um conjunto de descobertas e de acontecimentos trouxeram a máquina de costura e as cores do lado da tecnologia e as mulheres para as confecções do lado do mercado de trabalho. Mais participação das mulheres na indústria da moda diminuiu o tamanho das roupas e mudaram os cortes das peças. Eis a conquista feminina ao se apoderar das ferramentas e técnicas e trabalhar sua criatividade para uma moda mais prática;

 

E o short curto com a educação brasileira?

O episódio diz muito sobre a educação brasileira. Em primeiro lugar, as instituições de ensino estão mais preocupadas com o vestibular (a culpa é geral: dos pais, das universidades, dos sistemas de admissão etc.). Uma educação de qualidade não se faz nem só com resultados quantitativos, isto é, através de avaliações criteriosas de um conjunto de saberes e habilidades pré-determinados (coisa que o vestibular não é) e nem só com uma formação "para a vida". A pedagogia que troca o ensino de conteúdos pela arte de viver está fadada a não educar e a desencadear uma grande crise educacional, como falava Hannah Arendt em seu indispensável texto, A crise na educação. As alunas acertam quando criticam o tipo de educação que têm recebido.

shortinho

Outro problema é o despreparo dos docentes para executar a tarefa que lhes cabe. Se as roupas das alunas de 13 anos incomodam ou atrapalham a concentração dos professores, de modo a interromper suas aulas, significa que evidenciam problemas em fazer o que lhes cabe. Um professor que fica estimulado sexualmente por uma criança não deveria estar em sala de aula, no mínimo. Além do problema do campo das parafilias, expor uma aluna para toda a sala de aula, evidenciando que notem a roupa que ela usa, encaixa-se perfeitamente em assédio moral, endossado pela instituição que aprova o constrangimento.

Antes de fazer uma defesa total das alunas, outro problema da educação (familiar, escolar, religiosa, moral, intelectual etc.) brasileira é falhar miseravelmente no ensino da diferença entre público e privado. Quando uma escola privada é pensada enquanto espaço público há reivindicações muito estranhas. No caso das alunas, há um regimento escolar que impõe regras para o vestuário. A matrícula efetiva a concordância para com as regras da instituição. Elas, enquanto dependentes economicamente de seus pais, pouco podem fazer. Não significa que devam aceitar passivamente as regras. O abaixo-assinado serve justamente para demonstrar um descontentamento para com uma regra que se pensa desnecessária para o bom andamento do acordo firmado entre as partes. Se as alunas conseguirem apoio de suas famílias, podem ameaçar trocar de colégio. A perda de pagantes é um bom estímulo para mudar a regra do shortinho.

 

Liberdade e Autonomia

O que as alunas clamam é por liberdade! Querem poder decidir por si mesmas qual roupa usar. Como capacitar futuros adultos ao exercício da autonomia se negamos aos jovens decidir coisas simples como a vestimenta que usam? Dar esta possibilidade ao adolescente é lhe conferir responsabilidade sobre algo que lhe diz respeito: seu conforto, sua imagem, sua autoestima. É inclusive lhe conceder a responsabilidade por uma escolha ruim. Passar calor ou frio por ter escolhido a roupa inadequada ao clima é um aprendizado.

liberdade

Além disto, a roupa diz respeito à identidade do aluno. Torná-los todos iguais é tentar apagar o colorido da diversidade humana. As roupas, adereços, cabelos e comportamentos são importantes, especialmente na fase da vida na qual o adolescente quer se identificar com um grupo e é natural que isto ocorra.

Não são as alunas que devem explicações, é a escola. Como bem apontou Tom Palmer no capítulo "Por que ser libertário?", que abre o livro Liberdade: a ideia que está mudando o nosso mundo:

Alguém que deseja cantar uma música ou assar um bolo não deveria começar pedindo permissão a todas as outras pessoas do mundo para fazê-lo. Tampouco teria que refutar todas as possíveis razões contrárias ao cantar e ao assar. Se ela deve ser proibida de cantar ou assar, quem procura proibi-la deveria oferecer uma boa razão para justificar tal proibição. (p. 17)

Eu acredito na presunção da liberdade. Que as alunas estudem com roupas confortáveis e que o calor não atrapalhe os estudos.

Tags: autonomia, educação, escolas privadas, liberdade, short, shortinho

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